Gritos, cusparada e euforia: 10 anos da sessão do impeachment de Dilma

Foto: Nilson Bastian / Câmara dos Deputados

Do Congresso em Foco

Às 23h07 de 17 de abril de 2016, quando Bruno Araújo (PSDB-PE) deu o 342º voto favorável ao prosseguimento do processo de impeachment o, a Câmara explodiu. A barreira constitucional havia sido vencida. O plenário foi tomado por gritos de “Brasil! Brasil! Brasil!”, bandeiras erguidas, celulares no alto, abraços, selfies, cartazes de “Tchau, querida” e o coro de “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Do outro lado, em menor intensidade, ouviam-se vaias e palavras como “golpistas” e “canalhas”.

Naquele domingo atípico no Congresso, a sessão terminou às 23h50. O placar foi de 367 votos a favor, 137 contra, sete abstenções e duas ausências. Formalmente, Dilma Rousseff ainda não estava fora do cargo. Mas a derrota decisiva já havia ocorrido. A Câmara autorizava a abertura do processo no Senado, que a afastaria temporariamente em 12 de maio, por 55 votos a 22, e definitivamente em 31 de agosto, por 61 votos a 20.

A mais longa sessão da Câmara

O domingo decisivo foi apenas o ápice de uma maratona iniciada na manhã de sexta-feira, 15 de abril. A fase de discussões sobre o impeachment se arrastou por 43 horas e produziu 389 discursos, tornando-se, até então, a sessão mais longa da história da Câmara.

À medida que o cansaço, o cálculo político e o espetáculo televisivo se misturavam, o plenário deixava de ser apenas espaço de deliberação e se convertia em arena. A votação seria constitucional no rito, mas emocional no ambiente.

Câmara sob cerco

A Casa se preparou para aquele fim de semana como quem se prepara para uma batalha. O acesso foi restringido, a visitação suspensa, e todos que entravam no Congresso, inclusive servidores e jornalistas, passavam por detector de metais e raio X. Para circular nas áreas mais sensíveis, como Salão Verde, galerias e plenário, era preciso portar credenciais especiais com selo holográfico, que delimitavam o deslocamento de cada pessoa.

A moldura de segurança reforçava a percepção de que não se tratava de mais uma votação relevante, mas de um momento excepcional. Antes mesmo de começar, a sessão já era tratada como histórica.

Um muro para um país rachado

Do lado de fora, a divisão política ganhou forma física. A Esplanada dos Ministérios foi cortada por um muro metálico que separava manifestantes pró e contra o impeachment. De um lado, o verde e amarelo, as buzinas, os cantos e os pedidos de afastamento. Do outro, movimentos sociais, carros de som e a palavra “golpe” martelada a cada fala.

A acusação era fiscal, mas a sessão foi política

No papel, a denúncia contra Dilma era fiscal. O processo se apoiava em dois pilares: os decretos de crédito suplementar editados sem autorização do Congresso, em desacordo com a meta fiscal, e os atrasos de repasses no Plano Safra, classificados pelos acusadores como “pedaladas fiscais”, ou seja, operações de crédito vedadas com bancos públicos.

A defesa sustentava que não havia crime de responsabilidade, nem dolo da presidente, e que os decretos não aumentaram despesas de forma ilegal. Mas, no Plenário, prevalecia outra tese. As denúncia falavam de orçamento; os discursos falavam de crise, traição, moralidade, corrupção, fé, família e vingança.

Lava Jato e desgaste político

Esse ambiente não surgiu do nada. A Lava Jato não era a base jurídica do impeachment, mas ajudou a envenenar o ar que o tornou politicamente possível. A operação ampliou a percepção de colapso do sistema político, atingiu partidos centrais da base e da oposição e lançou sobre o governo um desgaste que extrapolava as acusações formais contra Dilma.

A acusação contra a presidente era fiscal. O ambiente que empurrava a votação, porém, era de saturação política generalizada.

O Centrão desembarcou

Ao mesmo tempo, o governo se desmanchava no centro do tabuleiro. O PP desembarcou oficialmente em 12 de abril, por 37 votos a 9, e fechou posição a favor do impeachment. O movimento pressionou outras siglas do chamado Centrão e acelerou a debandada de uma base já corroída.

Na prática, Dilma chegava ao domingo decisivo sem o bloco intermediário que, em Brasília, costuma separar sobrevivência de derrota.

Os desertores do governo

A decomposição da base ganhou um símbolo adicional: seis ex-ministros de Dilma votaram a favor da abertura do processo. O caso mais ruidoso foi o de Mauro Lopes (PMDB-MG). Recém-saído da Secretaria de Aviação Civil, reassumiu o mandato de deputado e votou a favor do impeachment. Dilma reagiu publicamente: “Mauro Lopes votou a favor do impeachment e, portanto, já não é ministro”.

O episódio condensou a humilhação política de um governo que já via antigos aliados aderirem abertamente à sua queda.

Dentro do plenário, a sessão produziu um retrato cru da ruptura. Houve discursos solenes, mas também falas performáticas, surtos patrióticos, dedicatórias religiosas e momentos que lembravam mais um programa de auditório do que uma deliberação constitucional.

Quando Bruno Araújo atingiu o voto 342, a catarse pró-impeachment tomou o plenário. O lado vencedor comemorou como quem vence uma guerra. O lado governista respondeu com a palavra que atravessou todo o processo: “golpe”.

A imagem final daquele domingo não foi apenas a de uma vitória parlamentar, mas a de dois campos em estados emocionais opostos: um em euforia, outro em luto político. E foi isso que fez da sessão de 17 de abril algo maior do que uma votação. Ela não apenas empurrou Dilma para o julgamento no Senado; expôs, sem filtros, um Brasil em combustão.

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