Foto: Polícia Civil/Divulgação
Deflagrada nesta quarta (15), a Operação Draft da Polícia Civil pernambucana teve como alvo um esquema de desvio milionário de dinheiro do gabinete de um ex-deputado estadual e com participação de outro ex-parlamentar da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), segundo os delegados que comandaram a ação.
Em entrevista coletiva, na sua sede, no Centro da capital pernambucana, a polícia informou que todos os oito alvos das buscas e apreensões realizadas no Recife, em Olinda e em Jaboatão, na Região metropolitana, são ou foram agentes públicos e atuaram com esse parlamentar entre 2015 e 2024, período em que aconteceram os desvios.
O montante desviado, ainda de acordo com a polícia, é de mais de R$ 2,8 milhões, mas pode chegar a R$ 6 milhões. O alvo principal, ex-deputado estadual, segundo a polícia, terminou o segundo mandato em 2022.
A corporação disse que não informaria o nome desse alvo nem o partido. O nome da operação, em inglês (draft), faz referência a alistamento.
Apreensões
Durante a operação, houve apreensões de dinheiro e outros objeto de alto valor. Nas imagens disponibilizadas pela polícia, é possível identificar ao menos duas barras de prata, além de dólar, florim húngaro, dirham dos Emirados Árabes Unidos, entre outras cédulas de diversos países.
Boa parte dessa quantia de dinheiro foi apreendida em uma residência localizada na Av. Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
Operação
Ainda conforme a polícia, a Operação Draft investiga a denúncia de existência de uma estrutura criminosa organizada para recrutar assessores, inclusive funcionários-fantasmas, para desviar parte relevante dos vencimentos pagos com recursos públicos, na prática conhecida como “rachadinha”.
O material reunido indica ainda indícios de ocultação e dissimulação da origem dos valores, por meio de contas de terceiros, movimentações fracionadas, cheques e operações financeiras simuladas.
A polícia investiga os crimes de peculato-desvio, concussão, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As medidas cautelares probatórias, entre elas buscas domiciliares, foram autorizadas judicialmente.
“As investigações prosseguem para completo esclarecimento dos fatos e responsabilização dos envolvidos na forma da lei”, acrescentou a polícia.
Esquema
Na coletiva, o delegado Juliano Medeiros informou que a investigação teve início, em 2023, a partir de outra operação, a Outline, realizada pela Polícia Federal, em 2019.
A ação da PF apurou o desvio de verba da obra de requalificação da BR-101, no trecho do Contorno Viário da Região Metropolitana do Recife, entre os municípios de Abreu e Lima e Jaboatão dos Guararapes.
Na época, o alvo da Outline fazia parte da direção do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), que não teve o nome informado pela PCPE.
O então membro da diretoria, segundo o delegado, sofreu busca e apreensão e teve o celular apreendido.
“Na extração de provas, além da questão dos casos sobre os desvios de verbas de obras da BR-101, existia indícios também de crimes de peculato, tanto na Câmara dos Deputados, quanto na Alepe”, disse o delegado.
Ainda segundo ele, o Ministério Público Federal declinou da competência para todos os crimes que teriam sido praticados na Alepe, compartilhando os dados com a Polícia Civil.
“A partir daí, foi instaurado o inquérito policial e analisados os dados e verificado que, no gabinete de um deputado em específico, foi montado o verdadeiro gabinete do crime com desvios de verbas públicas, com modus operandi de nomeação de funcionários fantasmas para que esses funcionários fantasmas sem qualquer contraprestação funcional, devolvessem quase a totalidade do salário. A rachadinha”, declarou Juliano Medeiros.
O policial disse que os salários desviados variavam de R$ 6 mil a R$ 18 mil por mês.
“O esquema era que o funcionário fantasma ficava com R$ 300, devolvendo o restante. Foram dezenas e dezenas de funcionários fantasmas, mais de 30”, informou.
Outra modalidade
Medeiros disse, ainda, que, de início, era praticado o peculado, que é quando o servidor usa do cargo para obter vantagem.
No entanto, depois o esquema foi crescendo, eles começaram a praticar a concussão, que é a exigência.“Em determinado momento eles passaram a exigir os assessores a devolução dos valores”, observou o policial.
Ainda conforme o delegado, entre 2015 e 2019, foi montada “uma verdadeira organização criminosa com estrutura ordenada, divisão de tarefas, havia um núcleo político, o núcleo de operadores e o núcleo financeiro”.