O declínio do império americano

Por: Mauricio Rands

Trump vence com a força ao depor e sequestrar o presidente de um país soberano. No curto prazo, pelo menos. Mas perde a guerra do soft power. Ao reeditar o velho intervencionismo americano na America Latina, reativa os juízos negativos à política externa que invadia as repúblicas de bananas e apoiava tiranos e suas ditaduras. Basta lembrar o apoio a Pinochet no Chile, aos generais argentinos, uruguaios e brasileiros em suas ditaduras. Com armas, recursos e treinamento, inclusive em técnicas de tortura. Isso parecia superado. Agora retoma a arrogância imperialista e afunda a imagem dos EUA. E inaugura uma nova geopolítica mundial, de novo centrada na prevalência do mais forte, como bem retratada por EricHobbsbawum, em seu classico A Era dos Impérios. Mas essa hegemonia apenas pela força, sem um minimo de coesão política, pode indicar início de declínio.

Recente livro de Peter Heather e John Rapley (“Why Empires Fall”), professores de Cambridge e do Kings College de Londres, sugerem a presença de fortes sinais de declínio das potências ocidentais lideradas pelos EUA. Eles analisam a fundo as dinâmicas do declinio de dois imperios. A do imperio romano no quinto o seculo D.C e a dos impérios europeus da era moderna. A partir da dinâmica das relações entre os centros desses Impérios e suas periferias, eles identificam um padrão historicamente recorrente. Embora, isso não permita inferir que vá se repetir, alguns desses fenômenos podem estar indicando o início do declinio do império americano.

Heather e Rapley criticam uma linha de explicação para o colapso dos impérios que remonta ao classico de Edward Gibbon, “Decline and Fall of the Roman Empire”. Para esses intérpretes o colapso dos imperios explica-se por fatores internos: longo declínio econômico, cultural e institucional, entre eles. Essa erosão gradual é vista como acelerada por invasões externas. Os “bárbaros” das confederações germânicas arrrematando o colapso do imperio romano.

Os imigrantes que “invadem” a Europa e os EUA nos dias que correm. Daí seguiria a receita de que o antídoto seria o controle das fronteiras. Como também sugerem autores como Nail Fergunson (Why the Nations Fail). A tese oposta, de Heather e Rapley, sustenta que os fatores mais relevantes não são escolhas e eventos no âmbito interno.

Mas, sim, as transformações que os centros imperiais desencadeiam em suas periferias. O desenvolvimento econômico das periferias, causado pelas necessidades do centro, deflagra processos políticos que findam por desafiar a própria dominação imperial que iniciou o ciclo. A emergência de paîses como China, Índia, Coreia e outros, até então periféricos, decorre dessa logica. Como eles advertem: não é possivel fazer o Ocidente “great again” no sentido de resfirmaçäo de um domínio global incontrastável. O processo de reajuste das potências ocidentais pode refazer uma nova ordem global a partir dos melhores tradições da civilização ocidental. Mas pode também reproduzir as piores.

Como parecem estar fazendo lideranças como Donald Trump e outras da ultradireita populista ocidental, hoje tâo fortes. Mas que, do alto da sua ignorância sobre a história dos impérios, podem estar acelerando o declínio ocidental. Quando à ignorância se acrescentam a visāo imediatista e supremacista do líder mais forte do Ocidente, não fica difícil perceber que essa receita não tem como dar certo.

O episódio da invasão da Venezuela e do sequestro do seu presidente foi festejado pela direita ocidental, com a honrosa exceção da francesa Le Pen. Mesmo os críticos da ditadura de Maduro, entre os quais me incluo, não podemos aceitar a invasão de um país soberano e o desrespeito ao direito internacional. Muito menos pela cobiça do petróleo desse país, algo que foi exposto com clareza por Trump.

Esse autocrata americano pelo menos é sincero. Não bastasse a própria ascensão da China e as dinâmicas econômicas e políticas mundiais atuais, a maior potência ocidental parece empenhada em acelerar o seu declínio. Xi Ji Ping observa e agradece, como concluiu o editorial da The Economist, em sua edição do Natal.

Maurício Rands, advogado formado pela FDR da UFPE, professor de Direito Constitucional da Unicap, PhD pela Universidade Oxford

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