Do Correio Braziliense
Março chega como reta final para os ministros que precisam deixar a Esplanada em busca de cargos eletivos em outubro. De acordo com a legislação eleitoral, os titulares têm até seis meses antes do primeiro turno para se desincompatibilizar. No momento, 21 ministros estudam deixar as pastas que ocupam com destinos diversos: concorrer ao Senado, à Câmara dos Deputados, a governos estaduais ou mesmo se dedicar à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Apesar de os palanques estaduais ainda estarem em processo de definição, ministros são peças-chave para a estratégia do presidente, que busca um inédito quarto mandato no Palácio do Planalto. Pesquisas eleitorais recentes, que mostraram um avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como nome da direita, acenderam um alerta no governo sobre a necessidade de garantir candidaturas fortes nos principais colégios eleitorais — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.
São Paulo é a maior incógnita por enquanto. Cresce a pressão do Planalto e do PT para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dispute o Palácio dos Bandeirantes contra o incumbente Tarcísio de Freitas (Republicanos). Lula, Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin se reúnem, a princípio, na terça-feira, para definir o desenho no estado. Apesar de Haddad negar publicamente que sua candidatura esteja definida, ela é dada como certa por aliados, uma vez que o ministro é considerado o único nome competitivo contra o governador paulista, escanteado eleitoralmente pelo clã Bolsonaro e praticamente obrigado a disputar a reeleição.
Pressão
Por sua vez, Alckmin também é pressionado a concorrer pelo estado — possivelmente ao Senado —, abrindo espaço para que um nome do MDB componha a chapa de Lula como vice. Nos bastidores, o atual vice-presidente nega querer disputar qualquer cargo que não seja a reeleição. O PSB tenta garanti-lo no posto e parte dos emedebistas resiste à hipótese de se atrelar a Lula — não esqueceram a campanha que o PT fez contra o partido, à epoca do impeachment de Dilma Rousseff, tentando colar no então vice Michel Temer a alcunha de traidor. Ainda assim, setores do MDB veem vantagem em embarcarem na segunda reeleição de Lula, sobretudo no Norte e no Nordeste, onde o presidente, aos poucos, perde capital eleitoral para o bolsonarismo.
São Paulo também é destino de outros ministros de peso. Simone Tebet, do Planejamento e Orçamento, pretende se lançar ao Senado pelo MDB. Para isso, porém, precisa trocar domicílio eleitoral e de partido, já que o partido no estado pretende embarcar na reeleição de Tarcísio e na campanha de Flávio Bolsonaro. Ela foi senadora pelo Mato Grosso do Sul até 2022, quando disputou a Presidência e, por conta do apoio que deu a Lula no segundo turno, foi convidada para ser ministra. Quem também mira o Senado é a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que negocia a volta ao PT para viabilizar-se na disputa. Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário, quer se reeleger como deputado federal por São Paulo. Já Márcio França, do Empreendedorismo, lançou pré-candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, mas pode ser mais um nome ao Senado. Porém, um candidato a mais do campo progressista poderia dividir os votos.
Também quer ser governador o ministro Renan Filho (Transportes), em Alagoas, para tentar fazer uma barreira de contenção ao grupo do ex-presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL) — que deve contar com o apoio do bolsonarismo. Mas Renan não é o único que vai em busca de um governo estadual: André Fufuca (Esportes), no Maranhão, pretende concorrer ao Palácio dos Leões, porém pode reforçar o time governista na busca de uma cadeira ao Senado. Outro que pode voltar ao Poder Executivo local é Camilo Santana (Educação) — aguarda definição se apoiará a campanha à reeleição de Elmano de Freitas (PT) ao Palácio da Abolição ou se ele mesmo vai à luta, caso se conclua pelas pesquisas de intenção de votos que tem mais chances de vitória.
Em Minas Gerais, o xadrez está complicado, uma vez que o bolsonarismo formou uma base forte no estado. Dos ministros, a dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, vai atrás da reeleição a deputada estadual, condição que não é capaz de influenciar tanto assim na reeleição de Lula. Alexandre Silveira, de Minas e Energia, chegou a ser cotado para o governo mineiro ou para o Senado, mas deve se abster da disputa e participar da coordenação da campanha de Lula no estado, sem deixar o posto na Esplanada. Isso porque o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), adversário de Silveira, sinalizou ao presidente que pode aceitar o convite para disputar o Palácio da Liberdade contra o atual vice-governador, Mateus Simões, apoiado pelo governador Romeu Zema (Novo) e pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Além de Silveira, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também participará da campanha à reeleição do presidente sem deixar o cargo. Já o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, planeja sair do posto para se dedicar integralmente à busca do novo mandato pelo presidente. Publicitário, Sidônio fez carreira em campanhas políticas e comandou a que levou à vitória do petista, em 2022, sobre Jair Bolsonaro.
O Senado é destino prioritário de grande parte dos ministros. Além dos já mencionados, buscam uma cadeira na Casa Rui Costa (Casa Civil), pela Bahia; Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais), pelo Paraná; Waldez Góes (Desenvolvimento Regional), pelo Amapá; Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos), por Pernambuco; e Carlos Fávaro (Agricultura), pelo Mato Grosso. Querem a Câmara Jader Filho (Cidades), pelo Pará; André de Paula (Pesca), por Pernambuco; Anielle Franco (Igualdade Racial), pelo Rio de Janeiro; Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), por São Paulo; Sonia Guajajara (Povos Indígenas), por São Paulo; e Wolney Queiroz (Previdência), por Pernambuco. Esse último, porém, ainda aguarda o sinal verde de Lula.